Imigrar, começar e se re-inventar…

Já não tenho nada para fazer e ainda resolvo escrever por aqui. Mas se funcionar como um refúgio, já está valendo. Na onda dos vídeos pensei em gravar, colocar alguns pensamentos no ar, mas resolvi sobre esse assunto ainda escrever. Nos últimos tempos, tenho lembrado muito dos meus anos trabalhando no Brasil. Correria, pressão, cabeça fervendo de ideias e muitas vezes não conseguindo tirar do papel, ou pior, nem conseguindo passar para o papel. Bom, vou misturar alguns assuntos, mas esse espaço é justamente pra isso, falar de tudo que passa pela minha cabeça.

O primeiro ponto é sobre a dificuldade de imigrar para um outro país. Existem casos e casos, mas tiro por experiência o meu e de pessoas mais próximos, que estão praticamente na mesma situação. O primeiro ponto é o visto, mesmo você tendo sua situação certinha, sempre vai faltar aquele documento dizendo e esfregando na sua cara que você não nasceu naquele lugar.

Novamente, no meu caso, o sonho americano é real. É um país de primeiro mundo e notamos as diferenças em pequenas coisas do dia a dia. Só que é mais difícil do que parece sim se manter aqui e além disso, aquela velha história que já comentei algumas vezes, de sempre conviver com a dúvida de ter tomado a melhor decisão, estar longe da família e tudo mais. Eu sonhava morar aqui, mas não por causa dos EUA e sim por causa da Disney. Como a Priscila diz, se a Disney ficasse em Cochabamba, provavelmente estaríamos por lá. Mas mesmo em Cochabamba, não teríamos nascido lá, a cultura é diferente, o idioma é diferente, os costumes são diferentes. Você pensa em imigrar? A primeira coisa, tenha coragem e se é o seu sonho, vá em frente, mas pense nas alternativas de como ficar, caso você tenha reais chances de “gostar” e não querer voltar. Se informe e tome as decisões com o maior conhecimento possível, pequenas coisas feitas antes da mudança, podem ajudar muito nesse processo.

Posso falar mais sobre isso se quiserem, deixe um comentário no post com as dúvidas que tento responder dentro do que eu conheço.

Outro ponto é você chegar num lugar que não conhece ninguém, isso é bom. Você não chega com malícia, não tem que se provar, você simplesmente tem que começar… Por outro lado, o começar, significa debaixo, do zero! Mas ainda sim, eu acho que o lado do começar “de novo” é positivo, não existe preocupação, não existe ainda uma rotina, tudo é novo. Porém, o tempo vai passar, a rotina vai acontecer e aquele dia a dia que consome vai aparecer. Aquelas pessoas que tem o prazer de jogar contra, que tem ciúmes, que já esqueceram como é “imigrar” fazem de tudo pra minar o caminho daqueles que as “ameaçam” ou tiveram coragem de fazer o que elas não fizeram.

Se reinventar o tempo todo é um desafio, mas pode se tornar cansativo. Esse jogo de morar em outro país não é fácil, mas é bom. Agora, é preciso saber das regras, pois algumas delas podem realmente te tirar do eixo no meio da história…

Será que um dia essa pergunta “vale a pena?” deixa de existir para quem resolveu morar fora?

Apenas uma reflexão…

Um ano depois vim parar aqui no blog, no qual tentei começar para falar sobre as minhas mudanças, principalmente a mudança de país. Ontem foi daqueles dias que em 90% do tempo que estive acordado me perguntei se estava valendo a pena tudo isso. Falar com as pessoas que tanto amamos, mas que estão tão longe, ver as coisas acontecendo e você não poder estar por perto. Sabe aquelas várias situações que realmente martelam na cabeça fazendo a “dura” pergunta “vale a pena?”. Nas redes sociais, as fotos, os vídeos, você só mostra o lado bom das coisas, até porque de coisas ruins o mundo já está cheio. Realizar o seu sonho é algo que não tem valor financeiro, não dá pra dizer o quanto isso vale, mas custa! Depois de 3 anos morando fora, já posso dizer com todas as letras, já esquecemos das coisas ruins que deixamos pra trás, muitas dessas coisas que nos fez querer alçar voos maiores e até melhores para nossos filhos. Mas o que a gente tem que lembrar diariamente é que antes disso, justamente, havia um sonho…

Depois de um dia com a cabeça pesada, fomos para a igreja e adivinhem? Uma palavra de conforto. Sabe daquelas pregações que você tem certeza que é pra você? Então, foi pra mim! Resumindo: Nós somos muito saudosistas e isso faz com que a gente olhe pra trás e só lembre das coisas boas.

Isso em determinados momentos pode ser um trava, porque não permite que você viva o presente. Que você enxergue tudo aquilo que está ali na sua frente e que você sem perceber está deixando os dias passar, pensando em como seria ou como vai ser.

Vale a pena sim, principalmente se olhar pro futuro e ver tudo que ainda pode acontecer, tudo que você pode viver. O primeiro passo que foi cortar o cordão aconteceu, agora é continuar e não perder o foco. Todo dia é uma luta, inclusive, para criar esses momentos felizes.

Ah! Tem o outro lado também, quando você volta, com certeza faz a pergunta “e seu eu estivesse lá?”…

Um dia de “fúria”…

Muita gente pergunta como aconteceu a preparação para a mudança, como planejamos e quais foram os caminhos. No nosso caso especificamente, essas etapas não aconteceram.

Era um sonho, nós sempre tivemos esse desejo, porém nunca nos preparamos para isso. O dia a dia, infelizmente, na maioria dos casos engole alguns dos nossos projetos e ainda mais sendo eles grandes, como uma mudança de país.

A única coisa que eu tinha certeza era de que um dia aconteceria, simplesmente pelo fato de que tudo que fosse sobre esse assunto eu estava ligado. Eu assistia todos os programas de TV que mostravam a história de quem mudou, lia todos os blogs, assistia todos os vídeos e sonhava quando seria o meu dia…

Antes de mudarmos, eu trabalhava a um quarteirão de distância da Priscila. Trabalhavamos na Av. Paulista e tentávamos sempre que possível almoçar juntos, porém nem sempre era possível. Num certo dia, daqueles que você decide mudar tudo, eu liguei pra ela e disse que precisava de um almoço juntos, que não dava mais, que a vida daquele jeito não estava nada legal e que precisaria conversar, ou teria grandes chances de no dia seguinte acordar sem emprego. Eu tinha um bom emprego, mas eu estava pra completar 30 anos e precisava de mudanças. Olhava para trás e via muitas conquistas mas e agora nessa nova fase da vida? Quando chegasse aos 50 e olhasse para os meus últimos anos, como seria? Teria orgulho? Teria histórias novas para contar? E principalmente, eu seria uma pessoa realizada, de verdade?

Fomos almoçar e despejei praticamente tudo isso para a Priscila e de quebra para o Ezequiel, nosso amigo que estava junto, durante mais de uma hora que ficamos lá. Saímos da mesa dizendo que mudaríamos em 2 meses à partir daquele momento e até hoje lembro do Ezequiel dizendo “você só fala, ouço você falar disso a anos”. Voltei para o trabalho e passei a tarde imaginando por onde começar…

Saímos do trabalho e fomos direto para a casa dos pais da Pri buscar o Pietro e contar a novidade. É claro que tem aquele choque inicial da notícia, até porque imagina tirar um bebê de 1 ano do convívio dos avós para uma loucura dessas. Porém, minha sogra disse exatamente o que precisávamos ouvir “não esperem o tempo passar e quando menos perceberem, ver que os anos já se foram e não dá mais tempo de correr atrás…”. Era justamente o apoio que queríamos e precisávamos.

Cheguei em casa, listei tudo que havia por lá e naquela mesma noite soltei no Facebook uma lista para vender essas coisas. Foi nessa hora que senti que a Pri percebeu que era séria a coisa. Desse dia, até a data da mudança (a história do primeiro post) deu por volta de 2 meses e meio.

Foi um ato de fé e de acreditar que seria possível. Não tínhamos famílias, amigos, nada por aqui. Tudo que aprendemos antes foi através da Internet e de pessoas que nos ajudaram virtualmente sem nos conhecer e nem cobrar nada em troca por isso. Simplesmente nos abençoaram e nos mostraram que era possível.

A nossa decisão foi tomada assim e espero que tenham gostado de mais essa parte da história. Já vou começar a imaginar o próximo post e acho que posso contar sobre o nosso primeiro dia na América. Sugestões? Deixem um comentário.

Até o próximo post…

O dia da “nossa” Independência

Por causa do Coisas de Orlando, sempre recebo perguntas sobre a nossa mudança e principalmente pedindo para que conte como foi. Hoje, 04 de julho, é o dia em que tudo aconteceu…

Há exatamente 2 anos atrás, acordamos sabendo que mudaríamos tudo em nossas vidas, que a nossa decisão nos ensinaria a “andar” de novo, teríamos que aprender a falar e desvendar tudo aquilo que nem sequer imaginávamos. O sonho de morar fora do país, viver uma nova cultura e o medo de não olhar para trás e ver que a vida tinha passado e que não havíamos saído do lugar falou mais alto e muito forte.

Durante o dia, não foi nada além de ter coragem de colocar o resto das coisas nas malas, separar os documentos e pegar nossa passagem só de ida (não havíamos planejado a volta). Sinceramente, lembro apenas disso e minha cabeça já me transporta para o aeroporto e a despedida.

Toda nossa família e amigos foram para lá e enquanto aguardávamos, por mais que a ansiedade era grande, estávamos ali, mas quando deu nosso horário e tivemos que caminhar para o portão de embarque, a sensação de medo, alegria, curiosidade e todas as outras que se misturaram, nos fizeram dar o primeiro passo e caminhar em direção dos nossos sonhos. Neste momento, lembro apenas de ter dado aquele último abraço em todo mundo, pegar o Pietro no colo e simplesmente não olhar para trás, pois eu tinha certeza que isso dificultaria bastante as coisas. Eu queria guardar uma imagem feliz e não das pessoas chorando pela nossa despedida…

Embarcamos, chegamos e aqui estamos. Não viemos conquistar a América e muito menos com a ideia de viver o sonho americano, mas Deus tinha bençãos maravilhosas para a gente e mesmo nas dificuldades (sim, elas existem e não são poucas), nós estamos conseguindo trilhar nosso caminho.

A gente conversa muito sobre a mudança, acho que para quem toma essa decisão, esse é um assunto constante. No fim, sempre surge a frase “se a gente pensasse mais um pouco talvez não teríamos feito”, mas fizemos e temos várias histórias para contar.

Se eu olhar para trás, tenho certeza de que o sentimento de que valeu a pena vai ser muito maior do que o de arrependimento…

Aos poucos vou contando aqui mais coisas sobre nossa mudança.

Termino esse primeiro post com as últimas linhas do Hino Nacional Americano.

E este é nosso lema, “Em Deus está nossa confiança”
E a bandeira coberta de estrelas em triunfo moverá
Sobre a terra dos livres e o lar dos bravos